quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Revista Placar/1977 - Os artilheiros especialistas - Flávio Minuano




Matéria da Revista Placar em 3 jun. 1977.
Leia a matéria abaixo:

Flávio consegue ser líder no Pelotas

Dos quatro, talvez seja Flávio o que melhor encarna a figura do especialista, do profissional bem conceituado. Não se oferece. Fica em casa esperando o chamado para resolver uma situação de emergência. Pega as chuteiras de estimação e se vai. Os colorados lembram bem. O Internacional foi buscá-lo no Porto em 1975, faltando um turno para o Campeonato Gaúcho terminar. Flávio marcou os gols nas horas decisivas, deixou sua marca no hepta e, para encarreirar, acabou como artilheiro do Campeonato Brasileiro. 

Depois acharam que ele não tinha mais nada a dar e o dispensaram. Com o passe na mão, em outubro do ano passado recebeu um convite do Pelotas. Pois Flávio, depois de classificar o time para o campeonato, acaba de fechar o primeiro turno como artilheiro, com 11 gols em 13 jogos.

Não foi um convite comum. Ofereceram-lhe o que um artilheiro com sua biografia merecia: um ordenado fixo, participação nas rendas, mais um tanto para entrar em campo. Ele não revela quanto dá isso, mas dizem na cidade que passa dos 20 mil cruzeiros por mês. 
Na verdade, o Pelotas deu-lhe mais: o aluguel de um confortável apartamento no Hotel Estoril e, o que parece mais importante, uma apaixonada idolatria. Ele faz palestras na Escola de Educação Física, de vez em quando comenta futebol no rádio e quando anda pelas ruas recebe abraços, tapinhas e abanos.

- É o nosso Flávio - exclamam com orgulho. 

No campo é poupado das criticas quando joga mal, e carregado nos ombros ao fim de suas habituais atuações. Isso parece ser o mais importante, porque Flávio sente vontade de retribuir mais do que com gols.

Bem como a história do mercenário que é contratado para executado uma missão e se apaixona pela causa. Um dia desses por exemplo, o técnico e preparador físico Júlio Arão demitiu-se e o clube entregou esses encargos ao massagista e tapa-buracos Getúlio Saldanha. Flávio achou-se na obrigação de ir ao Internacional pegar dicas com Gilberto Tim - e de ele mesmo comandar a ginastica. E das duras. 

- Vamos lá - força, força - grita enquanto saltita e levanta a perna à altura da cabeça. Às vezes se desola ao ver jogadores bem mais jovens do que ele fazendo corpo mole.
Os dirigentes o recebem em sua sala, dão satisfações, pedem opiniões; e Flávio comenta que isso é bem ao contrario do Inter que encontrou na volta - já grande, uma potência - onde cada dirigente tem sua sala e só recebe o jogador na hora do contrato. Às vezes pega a janta na casa do seu amigo Getúlio, que fica ali mesmo, ao lado da arquibancada, e demora-se batendo longos papos com a família.  Diz que se sente bem assim. De certa forma, é uma volta a sua origem humilde. 

Telê Santana, que foi seu técnico no Fluminense, diz que viu poucos jogadores com o sentido de colocação de Flávio. Há 16 anos no ofício, Flávio lembra que no começo corria para todos os lados do campo, esbanjando energia, impaciente porque não lhe passavam a bola.
- Achava que estava me prejudicando se não aparecesse em todas. Depois aprendi que o principal é ter paciência e colocação. Impossível que o beque  não falhe nem uma vez em 90 minutos. 

A sabedoria de Flávio tem sido fatal a muitos times. Mas o Brasil, o rival da cidade, é freguês. Num amistoso do inicio da temporada, o Pelotas ganhou de 3 a 0, três gols de Flávio. Foi sorte, disseram uns torcedores. No clássico seguinte, pelo campeonato, chamavam-no de velho e gritavam, em tom de gozação:
- Flávioooooooooo. 
Dois a zero, dois gols de Flávio. No ultimo jogo entre os dois, o Brasil saiu ganhando. E a torcida , ressabiada, pedia silêncio quando alguém ensaiava o grito. Mas, faltando meio minuto para o jogo terminar, todos se soltaram.
- Flávioooooooooo.
Nesse exato instante, o beque do Brasil estirou-se no ar para rebater de bicicleta e furou. Flávio estava na jogada e, como quase sempre, não deu perdão. 
- Acordamos o velhinho - puniam-se os torcedores.  

Revista Placar

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